Ilustração artística de um comboio de carga moderno atravessando uma ponte sobre um rio moçambicano, simbolizando o projeto da Linha Férrea Norte-Sul aprovado em 2026.

Moçambique acaba de dar o passo mais ambicioso da sua história recente no que toca à integração territorial e logística. Nesta terça-feira, 17 de fevereiro de 2026, o Conselho de Ministros aprovou oficialmente o projeto de construção da Linha Férrea Norte–Sul. Esta infraestrutura estratégica não é apenas uma obra de engenharia; é o desenho de uma nova espinha dorsal para a economia nacional, destinada a interligar o país de forma contínua, eliminando as barreiras geográficas que historicamente fragmentaram o nosso mercado interno.

​O anúncio foi feito pelo ministro da Administração Estatal e Função Pública e porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, ao final da sessão governamental. A aprovação da resolução culmina na criação do Gabinete de Coordenação do Projeto da Linha Férrea Norte–Sul, o "cérebro" técnico que terá a responsabilidade hercúlea de tirar o plano do papel e transformá-lo em carris e progresso.

​O Cérebro do Projeto: O Gabinete de Coordenação

​A criação deste Gabinete é um sinal de que o Executivo aprendeu com os desafios do passado. Não se trata apenas de construir novos troços, mas de uma gestão integrada. Segundo Impissa, a missão desta entidade é assegurar uma linha ferroviária contínua que integre:

  1. Linhas já existentes: Otimização dos corredores de Nacala, Beira e Maputo.
  2. Extensões planeadas: Prolongamento de ramais para zonas anteriormente isoladas.
  3. Novos traçados: Construção de elos de ligação que permitam atravessar o país sem interrupções.

​O Gabinete terá atribuições que vão desde a realização de estudos de viabilidade técnica e económica até à mobilização de financiamento internacional. A gestão de concursos públicos e a assessoria técnica direta ao Governo garantem que o projeto cumpra as normas legais e ambientais, algo crucial num momento em que Moçambique busca investimentos sustentáveis e verdes.

​Interligando a Riqueza Nacional

​A Linha Férrea Norte–Sul foi desenhada para ser o escoadouro natural da produção moçambicana. O Governo identificou quatro polos estratégicos que serão os grandes beneficiários:

  • Polo Agrícola: Facilitar o transporte de cereais e produtos frescos do celeiro do Niassa e Nampula para os centros de consumo no Sul.
  • Polo Industrial e Mineiro: Conectar as bacias mineiras de Tete e os complexos industriais aos principais portos, reduzindo drasticamente o custo do frete por tonelada.
  • Polo Turístico: Abrir novas rotas para o turismo interno e regional, permitindo que a beleza de Inhambane ou Cabo Delgado seja mais acessível por via terrestre.

​Esta visão de conectividade é fundamental para a transformação económica. No entanto, o sucesso de uma infraestrutura desta magnitude depende da saúde do ecossistema empresarial que irá utilizá-la. Recentemente, a CTA e o CFAO Group analisaram os desafios cambiais em Moçambique, lembrando que, sem acesso a divisas e um ambiente de negócios estável, mesmo as melhores linhas férreas podem sofrer com a falta de manutenção e operação eficiente.

​Unidade Nacional e Integração Regional

​Para além dos números e das toneladas transportadas, há uma dimensão sociopolítica inegável. A Linha Férrea Norte–Sul é apresentada como um instrumento de unidade nacional. Ao facilitar a mobilidade de pessoas, o Governo pretende encurtar as distâncias culturais e sociais entre os moçambicanos.

​No plano externo, o projeto coloca Moçambique no centro da integração da SADC. Uma ferrovia contínua de Norte a Sul transforma o país no corredor logístico preferencial para os países do hinterland (Zimbabué, Zâmbia e Malawi), consolidando a nossa posição estratégica na África Austral.

​Contudo, para que este projeto seja um exemplo de boa governação, o rigor ético deve ser a prioridade. A justiça moçambicana tem enviado sinais fortes de que a má gestão de fundos públicos não será tolerada, como se viu na recente condenação do antigo juiz presidente da Maxixe, Alexandre Njovo, a 10 anos de prisão. Projetos de biliões de dólares, como esta linha férrea, exigem uma fiscalização irrepreensível para que cada metical investido se transforme, de facto, em carris.

​Modernidade e Sustentabilidade

​O projeto também se alinha com a tendência global de digitalização e modernização de processos. Tal como a justiça está a inovar com o sistema de pulseiras electrónicas para minimizar a superlotação das cadeias, a nova linha férrea deverá contar com sistemas de gestão de tráfego de última geração, garantindo segurança e pontualidade.

​A mobilização de financiamento será o próximo grande desafio. O Governo espera atrair investidores estratégicos, possivelmente através de Parcerias Público-Privadas (PPP). O Gabinete de Coordenação terá de provar aos investidores que Moçambique é um destino seguro, transparente e com visão de longo prazo.

​A Linha Férrea Norte–Sul não é apenas um projeto de transporte; é o manifesto de um Moçambique que se quer inteiro. Se conseguirmos alinhar a viabilidade técnica com a transparência administrativa, estaremos a construir não apenas uma linha de comboio, mas o caminho para a verdadeira independência económica.

Acredita que a prioridade deve ser ligar as capitais provinciais ou focar primeiro no escoamento mineiro e agrícola para exportação? Deixe a sua opinião nos comentários.