Jornalista Cuange Simbe da TV Sucesso em primeiro plano, com um olhar sério, simbolizando a sua denúncia contra ameaças de morte após investigar o INATRO.

​A coragem de informar em Moçambique continua a cobrar um preço excessivamente alto. Este sábado, 14 de fevereiro de 2026, a esfera pública moçambicana foi abalada por uma denúncia grave e direta. A jornalista Cuange Simbe, da TV Sucesso, utilizou o seu perfil oficial no Facebook para expor que está a ser alvo de ameaças de morte. O motivo? Uma série de trabalhos jornalísticos onde expõe a desorganização e alegadas irregularidades no Instituto Nacional de Transportes Rodoviários (INATRO).

​A informação, que começou por ser amplamente divulgada pela plataforma Kelven Mídia, foi posteriormente confirmada pela própria profissional através de um vídeo e de uma mensagem escrita onde reafirma o seu compromisso com a verdade, apesar do risco iminente à sua integridade física.

​O "Cancro Maligno" na Função Pública

​Segundo os relatos de Cuange Simbe, as intimidações e tentativas de silenciamento intensificaram-se após as suas recentes reportagens sobre o funcionamento interno do INATRO. Em causa estão denúncias de problemas estruturais e indícios de corrupção que afetam diretamente o cidadão que procura serviços básicos no setor dos transportes.

​Me ameaçar de morte por relatar o cancro maligno do qual padece a função pública não resolve o problema. Podem me intimidar hoje, amanhã sempre virá alguém com mais força para dar continuidade, desabafou a jornalista.


​Simbe foi enfática ao afirmar que o seu trabalho não possui motivações político-partidárias, uma acusação comummente lançada contra vozes críticas no país. Pelo contrário, definiu-se como uma profissional pró-desenvolvimento, cujo objetivo é construir um país melhor para as gerações vindouras. Para a jornalista, o foco das autoridades deveria ser a resolução das irregularidades expostas e não a perseguição de quem as noticia.

​Um Contexto de Incertezas e Má Gestão

​As ameaças a Cuange Simbe não ocorrem num vácuo. Elas surgem num momento em que a gestão pública em Moçambique enfrenta um escrutínio severo. Recentemente, a desorganização administrativa e a falta de transparência financeira foram colocadas em evidência com a incerteza e o medo gerados pelo atraso no pagamento do 13º salário aos funcionários públicos. Tal como no caso do INATRO, a falha na comunicação e a percepção de que os direitos básicos dependem da sorte ou de escolhas institucionais minam a confiança do povo no Estado.

​A luta pela transparência é uma batalha de resistência. Se no campo desportivo assistimos a derrotas inesperadas e pesadas, como a goleada sofrida pelo Barcelona frente ao Atlético de Madrid na Taça do Rei, na vida pública o fracasso em proteger jornalistas críticos representa uma derrota para toda a sociedade democrática.

​Soberania e Direitos Fundamentais

​O caso de Cuange Simbe levanta um debate profundo sobre a soberania da voz do cidadão e a segurança nacional. Numa escala global, a defesa da soberania e dos acordos mútuos é o que mantém as instituições vivas, como recordou este fim de semana a Primeira-Ministra da Dinamarca ao avisar que um ataque à soberania da Gronelândia ditaria o fim da NATO. Da mesma forma, em Moçambique, a soberania da lei deve proteger aqueles que fiscalizam o poder. Se o Estado falha em garantir que um jornalista trabalhe em segurança, a própria estrutura democrática da nação fica em perigo.

​A jornalista concluiu a sua denúncia com um apelo simples, mas carregado de significado: Deixem-me trabalhar. Este grito de socorro ressoa não apenas entre os seus colegas de profissão, mas em todos os setores que clamam por uma função pública mais limpa, ética e eficiente.

​As ameaças de morte contra Cuange Simbe são um lembrete urgente de que o jornalismo de investigação em Moçambique continua a ser uma atividade de alto risco. O silenciamento de vozes críticas não elimina a corrupção; apenas permite que ela se espalhe sem resistência. É imperativo que as autoridades competentes investiguem as ameaças denunciadas e garantam que a liberdade de expressão não seja sacrificada no altar da impunidade.

Qual deveria ser a resposta imediata do Ministério do Interior perante ameaças públicas contra jornalistas? Partilhe a sua visão nos comentários.