Você teve? Você recebeu? Agora você... Estas frases, que parecem um código cifrado, tornaram-se o diálogo padrão nos bairros e postos de trabalho dos agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM). A pergunta, carregada de ansiedade, refere-se ao pagamento do 13º salário, um direito que, para muitos, se transformou numa miragem administrativa em pleno fevereiro de 2026.

​O Silêncio que Desmotiva

​Diferente do que se poderia esperar, a inquietação não vem apenas daqueles que aguardam a segunda fase de pagamentos. O maior foco de frustração reside nos agentes que, por norma e promessa, deveriam ter sido abrangidos na primeira fase. Para estes profissionais, a resposta é só aguardar já não é suficiente para sustentar a motivação necessária para garantir a ordem e segurança pública.

​Relatos colhidos em diversas esquadras indicam que a moral das tropas está visivelmente afetada. Agentes que diariamente arriscam a vida nas ruas sentem-se agora esquecidos pelo sistema. Quando a promessa de um benefício não se cumpre no prazo estipulado, o impacto imediato é a perda de entusiasmo e o surgimento de um sentimento de injustiça dentro das corporações.

​Um Reflexo da Desorganização Estatal

​Este cenário de incerteza na PRM não é um caso isolado, mas sim um sintoma do "cancro maligno" que padece a função pública, tal como denunciou recentemente a jornalista Cuange Simbe, da TV Sucesso, ao expor irregularidades noutros setores do Estado. A falta de transparência sobre quem recebe e quando recebe gera o que muitos chamam de "lotaria salarial".

​A solução para estas falhas crónicas parece passar pela reforma estrutural anunciada pelo Presidente, que defende a integração obrigatória de todos os sistemas do Estado. Enquanto os sistemas não comunicarem entre si de forma eficiente, erros no processamento de ordenados e subsídios continuarão a minar a confiança dos servidores públicos.

​A eficiência que o povo moçambicano exige na gestão pública é a mesma que vemos em grandes projetos internacionais, como a recente missão da SpaceX que restabeleceu a tripulação da Estação Espacial Internacional. Se é possível coordenar lançamentos orbitais com precisão matemática, por que é tão difícil garantir que o bónus de um agente da polícia chegue à sua conta na data prometida?

​De acordo com informações que circulam em plataformas de monitoria social o sentimento de abandono entre as forças de segurança pode ter repercussões na prontidão operacional se não houver um esclarecimento célere por parte das autoridades financeiras.

​O 13º salário não é um prémio para sortudos, mas um direito planeado. Para os agentes da PRM, a espera tornou-se um teste de resistência que poucos estão dispostos a continuar a fazer sem respostas concretas.

É agente da PRM ou conhece alguém no setor? Como está o ambiente de trabalho perante este atraso? Comente abaixo.