Close-up de uma pulseira eletrónica de monitorização judicial sendo ajustada, simbolizando o início dos testes piloto em Moçambique para reduzir a superlotação prisional.

​O sistema penitenciário moçambicano está prestes a dar um passo decisivo rumo à modernização e à humanização das penas. Nos próximos dias, pelo menos 15 reclusos serão os primeiros a testar o sistema de pulseiras eletrónicas no país. A iniciativa, que visa minimizar a crónica superlotação das cadeias nacionais, pretende alinhar Moçambique às melhores práticas internacionais de justiça penal.

​De acordo com o ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Mateus Saize, as autoridades judiciais já assinaram os instrumentos necessários para a operacionalização deste projeto-piloto. A informação, avançada originalmente pelo Jornal Notícias, destaca que o processo envolverá reclusos selecionados já nesta semana e na subsequente, com a perspetiva de multiplicar o número de beneficiários após esta fase experimental.

​Um Marco na Gestão Penitenciária

​O projeto, que conta com o apoio técnico e financeiro do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), foi lançado oficialmente em dezembro passado. Contudo, a sua execução prática exigiu ajustes administrativos e normativos complexos entre o Ministério da Justiça, a Procuradoria-Geral da República e o Tribunal Supremo.

​Para o Governo, esta tecnologia não é apenas uma ferramenta de vigilância, mas um mecanismo de reintegração social. Ao permitir que certos reclusos especialmente aqueles condenados por crimes leves ou em fase de transição para a liberdade cumpram as suas obrigações fora das celas, o Estado reduz custos e alivia a pressão sobre infraestruturas que operam muito além da sua capacidade.

​O Contraste entre a Reforma e a Realidade do Setor

​A introdução das pulseiras eletrónicas ocorre num momento em que a justiça moçambicana está sob os holofotes por diversos motivos. Enquanto o sistema busca alternativas para presos comuns, figuras de alto perfil continuam a enfrentar os rigores da lei em contextos distintos, como é o caso de Manuel Chang, cuja defesa nos EUA alega deterioração da saúde para pedir liberdade antecipada.

​Além disso, a eficácia de novas tecnologias de monitorização depende diretamente da motivação das forças que as operam. Atualmente, o setor da segurança enfrenta desafios internos, exemplificados pela crise de desmotivação na PRM devido aos atrasos no 13º salário. Para que projetos como o das pulseiras eletrónicas funcionem, é essencial que os agentes responsáveis pela fiscalização sintam que o sistema também cuida dos seus direitos básicos.

​A transparência judicial é outro pilar fundamental neste processo de modernização. Casos de denúncias públicas, como o da jornalista Cuange Simbe, que relatou ameaças após expor esquemas no INATRO, reforçam a necessidade de um sistema que não apenas vigie os reclusos, mas que também proteja quem denuncia as irregularidades no seio do próprio Estado.

​Próximos Passos

​Caso os testes com os primeiros 15 reclusos sejam bem-sucedidos, o Ministério da Justiça prevê uma expansão gradual do programa para as principais capitais provinciais. O objetivo a longo prazo é transformar a pulseira eletrónica numa medida de coação padrão, reduzindo drasticamente o número de presos preventivos e condenados por crimes de menor perigosidade social.

Acredita que a introdução de pulseiras eletrónicas ajudará a reduzir a criminalidade ou o sistema ainda carece de infraestrutura técnica para as monitorizar eficazmente? Comente a sua opinião.